6 de nov. de 2011
Portrait Of Angolan Leaders: João Brás Vieira Dias Van Dúnem
Data de nascimento: 1 de Outubro
Naturalidade: Luanda (filho de Mateus Vieira Dias Van Dúnem e Antónia Sardinha, irmão de José Jacinto Vieira Dias Van Dúnem (f.1977); Gena Vieira Dias Van Dúnem; Conceição Vieira Dias Van Dúnem; Mary Vieira Dias Van Dunem; Mimosa Vieira Dias Van Dúnem).
Administrador único e director-geral do grupo angolano Media Nova.
João Van Dúnem estudou em Luanda, tendo-se alistado nas FAPLA por altura da independência.
Quando dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, João Van Dúnem, então militar das FAPLA, estava em Cuba. Em Novembro de 1977 foi mandado regressar a Luanda, onde foi preso à chegada.
Libertado mais de um ano depois, João Van Dúnem rumou à Europa. Foi jornalista, produtor e chefe dos serviços em português para África da BBC em Londres.
João Van Dúnem é irmão mais novo de José Van Dúnem, um dos acusados pelo regime de Agostinho Neto pelo levantamento “fraccionista” de 27 de Maio de 1977. Numa entrevista a Lara Pawson, explicou que os fraccionistas não tentaram um golpe militar e, além disso, que isso revela um grave erro na estratégia dos fraccionistas: “se eles quisessem matar Neto, poderiam tê-lo feito. Talvez então, você poderia dizer ter sido um golpe militar. E se Neto tivesse sido morto, as coisas poderiam muito bem ter mudado para melhor em Angola. Foi um erro de cálculo do meu irmão. Até ao fim, ele defendeu a posição de que não deveria haver qualquer derramamento de sangue”.
João Van Dúnem disse a Lara Pawson que os fraccionistas discutiram a possibilidade da tomada do poder através da força – aparentemente, houve um debate – mas eventualmente todos concordaram com o Zé, que um golpe seria um erro. Diz que o seu irmão era respeitado pelos outros fraccionistas pelo seu intelecto, e foi carinhosamente apelidado de “o filósofo”. Foi esse prestígio que convenceu os fraccionistas “contra a tentativa de um golpe”.
Na verdade, João Van-Dúnem disse a Lara Pawson que poucos dias antes do 27 de maio de 1977, o presidente Neto pediu a Zé para falar com a 9ª Brigada e desencorajá-la de tentar um golpe. Nessa fase, Neto estava claramente consciente do desejo entre os fraccionistas determinados em derrubarem a facção Neto do MPLA. O jovem Van Dúnem diz que o seu irmão respeitou os desejos de Neto e foi falar com a Nona Brigada.
No exílio em Londres, João Van Dúnem nunca descansou em querer saber o que aconteceu ao seu irmão José. Em 2007, numa carta ministro da Justiça angolano, Lázaro Dias, João Van Dúnem pedia as certidões de óbito do seu irmão José e de Sita Valles. Aquele governante limitou-se a remeter o assunto para os seus colegas da Defesa, da Saúde e da Segurança, com a seguinte alegação: «Sabido que o Ministério da Justiça só emite certificados de óbito com base em notas ou nótulas de médicos a atestar o óbito – o que não aconteceu -, solicito a informação sobre se têm algum conhecimento do falecimento das pessoas acima referidas.»
João Van Dúnem tentou também saber do papel de intelectuais angolanos nos acontecimentos seguintes a 27 de Maio de 1977. Numa carta assinada por ele e pela sua irmã Francisca Van Dúnem (jurista de formação, com residência fixa em Portugal), endereçada ao escritor angolano Pepetela, pedem respeito pelo sentimento das famílias daqueles que matou ou ajudou a matar, e lembram-lhe que “cada um de nós convive como pode com os demónios que nos atormentam”.
João e Francisca Van Dúnem acusam Pepetela de querer insinuar que não participa na repressão quem ajuda a organizar a propaganda que a “legitima”, para tanto escrutinando depoimentos obtidos através de métodos de todos conhecidos e seguramente incompatíveis com padrões mínimos de humanidade.
Os irmãos de José Van-Dúnem apelaram a Pepetela (e a outros que material ou intelectualmente participaram na repressão) para agir com coerência, dignidade, seriedade intelectual e coragem política. Por essa razão, apontam os factos que se seguem:
O Ministério da Defesa, onde Pepetala diz ter estado a seleccionar depoimentos, era, na altura, em Luanda, com a Fortaleza, a cadeia de São Paulo, a Casa de Reclusão e a sede da DISA, a câmara de tortura de muitos jovens acusados, com fundamento ou não, de fraccionismo. Se todos eles tivessem sido tratados com Justiça, hoje certamente estariam a dar o seu contributo à reconstrução do País;
Era no edifício do Ministério da Defesa que estava instalado o Estado-maior da repressão, coadjuvado por assessoria cubana. Foi aí que se decidiu o destino – vida ou morte – de milhares de jovens, alguns menores de idade, como são os casos de Francisco José e Charula de Azevedo.
João e Francisca Van Dúnem terminam a sua carta colocando duas perguntas a Artur Pestana:
Estava ou não Pepetela ao corrente da violência, da coacção, da tortura com “Nguelelo” e outros tratamentos cruéis, desumanos e degradantes com que eram extraídos os depoimentos que afirma agora terem sido seleccionados por uma comissão que integrou?
Sabe ou não o cidadão Artur Pestana, ou seja o escritor Pepetela, que os cidadãos cujos depoimentos escrutinou não tiveram direito a garantias mínimas de defesa, não foram presentes a qualquer Tribunal e que a maior parte deles “desapareceu”, para sempre, sem que as respectivas famílias tenham sequer tido a possibilidade de lhes dar um enterro digno?
Num artigo com o título “Pepetela & C.ª, os juizes da morte”, publicado no bissemanário Folha 8, os Jornalistas William Tonet e Arlindo Santana defendem que é chegada a hora de os algozes assumirem os seus papéis e que Artur Pestana (Pepetela) não foi o único a ser utilizado pela DISA como peça descartável das máquinas de tortura.
Os jornalistas apontam os nomes de Costa Andrade “Ndunduma”, Iko Carreira, Luandino Vieira, Henrique dos Santos (Onambuwe), Rui Carvalho, que mais tarde se fizeram “passar por democratas” mas que colaboraram para que o genocídio que ceifou a vida a cerca de 80 mil angolanos fosse um facto, que é considerado por alguns estudiosos da História política doméstica como um autêntico crime contra a humanidade.
Fonte: Pitigrili
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