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24 de jul. de 2011

O perdão nacional e a consistência do movimento crítico





“Miserável país aquele que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis” _ Bertolt Brecht
Não esperemos os heróis, sejamos nós os heróis, combatendo palmo a palmo pela independência da nossa Pátria” _ Agostinho Neto

Hoje pensei iniciar as minhas “linhas tortas” com estas frases antológicas do poeta e dramaturgo Brecht e do poeta e político Neto.

Vou falar do perdão, e, por isso, parece contraditório chamar para aqui Neto, que para muitos, ficou conotado como um homem implacável. Com as minhas limitações humanas, e, provavelmente, porque Neto não é da minha geração, nem etária nem política (lembro-me de lhe ter apertado a mão, apenas uma vez), posso ter sido induzido em erro, mas devo confessar que o homem, como poeta e político, transmitiu-me de si a imagem de um humanismo profundo e uma integridade sem par. Por isso é o primeiro a quem teria de perdoar pela falhas de ser humano que ele era, para poder citar-lhe aquela frase, onde não falta uma certa implacabilidade, que acho dever entender-se no seu contexto, para poder equipará-la às, aparentemente paradoxais mas, lapidares frases de Brecht.

Há muito que me convenci que para erigirmos uma nova Angola é preciso efectivar o perdão entre nós. E tenho-o deixado, talvez apenas nas entrelinhas, mas hoje gostaria de ser um pouco mais explícito. É a este propósito que falo da necessidade de heróis para a nossa pátria, hoje: são os heróis de um perdão que não deve ser apenas formal mas, um perdão efectivo; que possa ser tão efectivo, que o “toquemos”, nos dois sentidos, como quem toca uma flauta: com a boca e com os dedos.
Eventualmente, estou a dizer coisas desacertadas ou, no mínimo, politicamente incorrectas (e eu que sou político, Santo Deus!). Perdoem-me, a mim, antes de mais, mas creiam que estas coisas que digo, são resultantes de reflexões que venho fazendo há muito tempo, despido de quaisquer interesses de carácter imediatista pessoal. Falando disso, há dias, a seu pedido, encontrei-me com Erick Silla, conselheiro do Subsecretário de Estado para os Assuntos Africanos dos Estados Unidos e foi mais ou menos isso que eu lhe disse (e ele pareceu-me aquiescer) depois de me ter informado que a sua principal função é ajudar a Secretaria de Estado na elaboração de estratégias para a promoção da democracia e desenvolvimento económico e social, na África Subsaariana:  “Acertaram na mosca, senhor subsecretário. Falar de estratégias é  _ creio _ cuidar dos assuntos, antes que eles se transformem em problemas; e, na África Subsaariana os problemas têm-se agravado porque tanto nós, os próprios negro-africanos, como os países ocidentais que se proclamam disponíveis para nos apoiar, andamos todos atrás das questões imediatas: dos barris de petróleo que vão ser “chupados” amanhã (esta foi uma indirecta para quem me ouvia); dos regimes que já se tornaram tão totalitários, nas nossas barbas, que se começam a autodestruir, e aí impomos sanções que, por vezes, mais prejudicam os mais débeis, etc., etc.”. E dei o exemplo da União Africana que da política de “fecha os olhos”, herdada da finada OUA, perante golpes de estado militares, passou agora a sancioná-los mas, esquecendo-se que em muitos casos, eles são subsequentes a golpes constitucionais e a uma série de injustiças e outras irregularidades, desencadeadas por políticos agarrados ao poder como lapas, e que são aplaudidos ruidosamente, e por muitos anos, como líderes fortes e propiciadores de estabilidade. E falei-lhe do caso actual do Níger. E lembrando-me do que disse na conferência de Benguela, “injustiça chama injustiça”, falei-lhe do caso da Guiné Conacri: há um presidente que se torna o pai da nação mas ele e os seus, não largam o poder enquanto ele não morre de morte natural, um quarto de século depois, quando o seu regime é deposto já depois que ele tinha fechado os olhos; “injustiça chama injustiça”, quem o depõe e os seus, achando-se no direito de fazer o mesmo, prometem mudar as coisas, mas lá ficam o mesmo quarto de século no poder, para nessa altura, também com o líder de olhos fechados, serem golpeados; “injustiça chama injustiça”, nós os ainda vivos, nestes dias mesmo a correr, e a caminho da celebração da sexta década desde a proclamação da independência desse país, vemos o último golpeador a levar tiros que quase o matavam, alguns anos já depois de promessas desprometidas, porque continuamos a pensar que “política é assim mesmo”, especialmente aqui na nossa sofrida África.
Eu considero autêntica cobardia, dizer-se que não podemos evitar isso nos nossos países porque “isso é assim mesmo”, quando vemos que países que seguiram ou seguem caminhos diferentes vão melhorando, gradualmente, as suas vidas e em paz.

Quando refiro aqui o perdão, não estou a falar do perdão no sentido religioso do termo, mas sim, no sentido da construção das nossas sociedades políticas; se bem, que das religiões, especialmente das cristãs, que são daquelas que já fazem parte, praticamente, da alma angolana, não devíamos desperdiçar as grandes lições de Cristo e seus discípulos e seguidores, como S. Paulo, sobre o sentido do perdão e da irmandade. Até hoje, muitos de nós, tantos anos depois das nossas independências, continuamos a não perdoar o colonialismo, a quem atribuímos a culpa por todos males antigos e actuais. Eu já ouvi cristãos, que por serem sequazes de determinados ideários políticos, não perdoam a Igreja Católica (a menos que fale a seu favor) por um passado de que a própria Igreja já se penitenciou tantas vezes, na voz dos seus mais altos mandatários. Por isso, oiço dizer, sem espanto, que já começa a haver jovens padres que ensaiam como bajular o regime que nos controla, não venha o diabo a atrapalhar-lhes a vida.

Penso que, provavelmente, a renitência, de muitos de nós, em perdoar os outros, especialmente, no plano político, deriva do facto de que temos medo de nos perdoarmos a nós próprios pelos erros cometidos _ alguns deles tremendos _ arrastados por factores que por vezes nos ultrapassavam, como foi, por exemplo, o caso da Guerra Fria. Assim, entre gente de diversos sectores que procuram empenhar-se em impedir que minemos o nosso futuro, especialmente depois do protocolo de paz de 2002, parece que um dos problemas maiores é a falta de coragem para nos perdoarmos porque: “não me junto com este, mesmo que esteja agora certo, mas ontem esteve a trabalhar no partido único dos comunistas”; “aquele aí está certo, mas a sua raça ou tribo é perigosa”; “o outro lá está certo, mas ontem participou naquele julgamento”; “aquele outro, tudo bem, mas foi um grande cac, oca, fraccionista ou revolta activa”; “olha aquele ali, a cuspir no prato onde comeu”; “o outro acolá, agora boas falas, mas foi ele que tinha dito que transformariam Angola em pó”; e… coisas assim.

Muitas pessoas me interpelam e perguntam como é que, assumindo-me ligado ao partido no poder, onde ocupei funções tão importantes, tanto partidárias como governamentais, tenho a coragem de abordar determinados assuntos como o tenho feito. A reposta é que, num exercício interior, eu aprendi a perdoar-me pelos próprios erros e equívocos, em primeiro lugar. Depois, perdoo a todo os outros, que por esta ou aquela razão me prejudicaram ou prejudicaram os meus próximos. É assim que perdi o medo de abordar todas as questões, especialmente aquelas que considero as mais importantes para o meu país, sem as quais _ penso _ todos os esforços serão difíceis de compensar. Por isso tenho a coragem de pedir, hoje, que “não esperemos os heróis, sejamos nós os heróis” combatendo por um perdão autêntico, entre nós; para construirmos uma pátria completamente desminada, especialmente, para as próximas gerações. Acredito que se assim o fizermos, começando pelo próprio movimento crítico contra as coisas menos certas (algumas delas demasiado tortuosas), iluminando sempre as veredas da paz, obrigaremos os pescadores de águas turvas a descobrir que afinal as coisas chegam para todos, se nos decidirmos seguir por caminhos menos tortuosos.

Por isso, se hoje me perguntarem qual foi o acontecimento mais deplorável, desde que escrevi as minhas últimas “linhas tortas”, há um mês, direi que foram as despropositadas afirmações atribuídas a nossa irmã sul-africana Winnie Mandela, que terá desprezado toda uma esplendorosa lição de perdão construtivo e efectivo, protagonizada pelo inigualável Nelson Mandela. Como se não tivéssemos ali ao lado a situação deplorável do Zimbabwe! 

Por: Marcolino Moco

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