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4 de jul. de 2011

A ACÇÃO

Postado no facebook por Luiz Araújo 


Luiz Araújo
   


"É cacimbo mas, mesmo nesta época, durante o dia, o Sol aquece muito as chapas de zinco do tecto da barraca de chapa. Passo o dia sem camisa e mesmo assim suo abundantemente. 

Só ao entardecer abro a janelinha de madeira sem vidros da barraca para deixar entrar ar fresco e estender o olhar ao beco que dá para a traseira, aparentemente é o único acesso à barraca. Do lado da frente que dá para a rua a chapa dum dos cantos da barraca está solta embaixo para a saída rápida em caso de necessidade. Nas proximidades, no quintal da casa dum companheiro está uma mota todo o terreno com 500cc pronta para me transportar no caso de ter que sair com rapidez. A chave da mota está comigo

Quando ao fim da tarde abro a janela para arejar a barraca também posso verificar se o companheiro que vigia a circulação na zona está no seu posto, uma banquinha de venda de cigarros, rebuçados e outras baratices com que ocupa o tempo e disfarça a sua função principal.

Durante todo o dia, vindas da ruela de terra onde começa o beco, oiço vozes dos passantes, das crianças em brincadeiras. Oiço as conversas entre vizinhos e vou sentido a vida pulsar à volta. Não conheço as donas e os donos das vozes mas já conheço suficientemente as vozes dos vizinhos. Estou aqui há três semanas mas, pela voz, já consigo perceber se quem está a falar é da zona ou se é um estranho.

A vizinhança não sabe que alguém está nesta barraca. Para todos é uma barraca desabita. O dono da barraca, para despistar a vizinhança, de vez em quando, lá para as tantas da noite, comigo esgueirado pelo beco para as suas companhias não me verem, traz duas ou três moças, activistas da rede, para fazer parecer que tem e só usa a barraca para as suas orgias sexuais. É uma boa forma de camuflagem.

Há dias uma vizinha, bem zangada, em conversa com outras vizinhas e em voz muito alta comentou essa situação. As vizinhas responderam-lhe que não tinham nada a ver com isso dizendo-lhe que cada uma é que sabe da sua vida e que não se querem meter na vida do vizinho para não arranjarem confusão.

Quase todos os dias, depois das sete da noite, quando a escuridão é suficientemente cerrada inicio os contacto por telemovel. Em grupos de dois e de três, activistas lideres de zona, começam a chegar. Ficam em média cerca de meia hora.  Antes de chegarem saio sempre da barraca deixando a porta encostada para poderem entrar e esperar por mim dentro da barraca. Só depois apareço, sempre. a seguir a um toque do telemóvel não atendido, respondido com dois toques também não atendidos.

Estes encontros são necessários porque determinamos não falar sobre a acção por telemóvel para não corrermos o risco de sermos alvo de escutas. Nos encontros temos falado só do trabalho para a acção. Relatam-me sobre a realização das actividades, discutimos pormenores da preparação para a acção, e recebem novas  orientações, em seguida partem um por um. Logo que parta o último de cada grupo  com que trabalhei ligo e marco o próximo encontro, "para virem já jantar, o calulu já está pronto", são os cuidados de rotina da acção. Essa actividade todas as noites dura até às onze da noite.

No quarto que também é a sala desses encontros um candeeiro com uma luz muito fraca, reduzida por uma caixa de cartão com buracos por onde passa a luz, permite que nos vejamos e que tome-mos notas. A energia eléctrica vem dum gato, dois ganchos metálicos aplicados a cabos que passam por cima da barraca. É com essa energia que também alimento o computador portátil com que me ligo à rede por via dum dispositivo móvel de acesso á Net. É importante para comunicar e também para pela acção na rede online todos pensarem que estou a milhas de distancia noutro lugar do Mundo.

O trabalho progride, começa a dar resultados. A estrutura em rede de liderança da acção está a ganhar corpo. Nalguns casos "a igreja" já tem adesões de cidadãs e cidadãos em número importante. 

Amanhã, durante a noite, mudarei de instalação, vou passar alguns dias no apartamento dum velho companheiro na baixa. Necessito de discutir com ele aspectos chave da acção. Necessito também dum bom banho e de me alimentar melhor. Depois disso não retornarei a esta barraca. Outra, noutro musseque mais central, está a ser preparada. Vai ter melhores condições apesar do meio envolvente ser semelhante ao desta zona.

Ninguém me viu chegar a este sitio, como ninguém me vai ver chegar e instalar-me na próxima barraca, excepto os companheiros que me acompanharem nessa movimentação.

Espero em breve poder sair á rua e ir até à baixa com os companheiros, Seremos uma multidão". Depois disso, como acreditamos e queremos, nada será como antes"..."

Acreditem, é ficção/acção...
Z
Postado no facebook por Luiz Araújo a Segunda-feira, 4 de Julho de 2011 às 16:45


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