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27 de jun. de 2011

Sotaques e Identidade

por Sousa Jamba no Facebook  Segunda-feira, 20 de Junho de 2011 às 8:18















Para os aficionados angolanos da Internet, a grande história da semana foi a entrevista da jovem académica Vanessa Mayomona com o Secretário dos Negócios Estrangei­ros da Unita, Alcides Sakala. Há, nisto tudo, uma outra estrela angolana que surgiu: o Al Felix, que é um angolano que vive no Brasil há muitos anos. Ele faz comentários em ví­deo que são publicados no Facebook.

Na última semana, depois de vários ví­deos, o Al Félix foi severamente criticado, não pelo conteúdo das suas intervenções, mas pelo seu sotaque. Muita gente não se sentia confortável pelo facto deste ango­lano ter um sotaque abrasileirado. Muitos acusaram-lhe de pretender ser um daqueles pastores angolanos que, ao integrarem uma seita com origem brasileira, mudam logo o seu sotaque. O Al Félix passou a defender o seu sotaque dizendo que vive no Brasil há dezasseis anos. Os críticos não estão nada convencidos; para eles, o angolano que adopta um sotaque brasileiro é quase um falsificador.

Será que o Al Félix seria assim tão cri­ticado se tivesse um sotaque português? Acho que não. Isto é porque, para muitos angolanos, o sotaque português é algo que se adquire com esforço – e uma certa for­mação. A um certo nível, o domínio da Língua Portuguesa, incluindo uma pro­núncia altamente requintada e refinada, re­presenta, para certos angolanos, uma certa vingança contra o colono, numa lógica de que se eles colonizaram a nossa terra, ago­ra vamos colonizar a língua deles. Mas este «diálogo» só pode ser mesmo travado com Portugueses.
Há alguns atrás, havia uma anedota que fazia os mwangolé rirem bastante. Era as­sim: um angolano aterra no aeroporto de Lisboa e mostra o seu passaporte ao oficial da imigração. O oficial vai à página da foto e vira-se para o angolano dizendo: «Isto é bocê?». O angolano abana a cabeça, ri-se, e diz: «Não, é você!». Para certos ango­lanos, descobrir os vários «portugueses» falados em Portugal passa a ser algo com muito significado. Eles dizem a si próprio s que afinal dominam a melhor versão – a mais polida - da Língua Portuguesa. E isto, como já disse, resulta de um esforço acadé­mico tremendo.
Conheci um angolano que, em Lisboa, sempre entrava em makas com portugueses porque não resistia a corrigir o seu Português. Na Vila Nova de Gaia, no Porto, ele chegou mesmo a trocar socos com alguém, depois de um «acalorado debate» sobre a Língua Por­tuguesa. Diz-se que este angolano mandava cartas para a Edith Estrela, uma personagem política que também tinha um programa so­bre a Língua Portuguesa, para reclamar do estado deveras lamentável em que se encon­trava o Português falado em Portugal. Este angolano não podia com as expressões ingle­sas e até angolanas (bwé, fixe, camba, cota, etc.) que, na sua opinião, estavam a diluir a pureza da língua de Camões.
Para muitos angolanos, o «sotaque de autoridade» ainda é o sotaque português – ou o que eles imaginam ser um sotaque português. Diz-se que o famoso sotaque dos jornalistas da rádio e televisão angola­na foi algo inventado, em parte, pelo faleci­do Francisco Simon. Os angolanos adoram e respeitam este sotaque português. Muitos angolanos já não têm o mesmo sentimento em relação ao sotaque brasileiro. Sim, há expressões brasileiras que são cada vez mais usados pelos angolanos – «bacana», «cadê», «bisneiro», etc, – porém, evita-se adoptar o sotaque completo. Alguém me disse que quando, em Angola, se vê um mwangolê a falar completamente à brasileira signifi­ca que passou muito tempo a ver televisão brasileira. Não só a ver, mas ingerindo, sem crítica, tudo que vê e ouve. Os angolanos ficam um pouco inquietos quando ouvem um seu compatriota a falar com um sota­que brasileiro porque se vê, nisso, o que alguns caracterizam como uma adulação muito servil da cultura brasileira.
Da mesma forma que há angolanos que adoram a cultura popular brasileira, noto, sobretudo na classe dos intelectuais, uma certa reacção negativa contra ela. E isto está a manifestar-se muito através de uma certa antipatia contra determinadas seitas reli­giosas brasileiras. Há certos angolanos, por exemplo, que não podem com o que eles vêem como uma guerra que certos evan­gelistas estão a travar contra o candomblé – algo que liga os afro-brasileiros às suas raízes africanas. Suspeita-se que um dia, angolanos completamente transformado em brasileiros, com sotaques e muito mais, virão à África para desfazerem, em nome do Cristianismo, certos aspectos da cultura Africana. Para esses angolanos, do Brasil não saem apenas obsessões com «bumbuns dourados»; saem, também, valores que ameaçam a própria identidade angolana.
Certos analistas sugerem que a cultura e a identidade das pessoas têm que ser vistas como um icebergue: em cima estão as ma­nifestações óbvias que identificam a pessoa – raça, língua, trajos, etc.; e em baixo há os valores das pessoas – como encaram a vida, as teias psicológicas que os ajudam a ter sentido do mundo. O que está em cima do icebergue, muitas vezes, serve como pista ao que está debaixo.
Um angolano que fala com um sotaque português adquirido através de estudos (ter sido, por exemplo, seminarista) terá, tam­bém, de ser exposto a vários aspectos da cultura europeia. Quem domina Camões passa a saber um pouco sobre a Literatura clássica Ocidental. O mesmo já não se pode dizer do angolano com um sotaque brasi­leiro. Estamos aqui, claro, a tratar de um mundo de percepções que, em muitos ca­sos, pouco tem a ver com a realidade.

Porém, o que ocorre nas mentes das pessoas é uma realidade. Os críticos do sotaque brasileiro do Al Félix insistem que ele fala como um pastor angolano de uma seita brasileira. Para certos angolanos  essas seitas estão mesmo cheias de charlatães – indivíduos que dizem aos seus seguidores para darem dinheiro que, através das suas orações, será multiplicado. O sotaque brasileiro passou, então, para certos ango­lanos, a ser identificado com um certo so­fisma. O humorista Pedro Nzagi tem uma cena cómica, que esta no Youtube, de um pastor desonesto e libidinoso. Claro que este pastor angolano fala com um sotaque brasileiro forte. Parece ser mais fácil mentir e ludibriar os angolanos, usando um sota­que brasileiro.

No Youtube, há um clipe em quem um artista de música rap é entrevistado por um jornalista angolano e ele responde em Inglês. Bem, não num Inglês normal, mas num «ghetto talk» - ou calão dos negros. O artista insiste, no seu «street talk» que ele nasceu e cresceu em Angola. Porém, ele recusava responder às perguntas em Portu­guês, continuando a falar em «ebonics» – como é também conhecida a gíria dos afro-americanos. Os comentários por debaixo desta entrevista são mesmo iguais às críti­cas ao Al Félix. As pessoas não podem com ideia de que este mwangole se está apresen­tar como um autentico angolano, mas per­siste em falar como um negro americano. O homem é insultado e chamado por todos os tipos de nomes.
Quando se trata de questões de identida­de, temos uma escolha. Podemos eviden­ciar certos traços que revelam a que classe pretendemos pertencer. Mas a sociedade também coloca-nos no devido lugar.

Quando eu vivia na Inglaterra, havia o Trevor MacDonald, um negro vindo de Trinidad, que lia o noticiário e falava com sotaque muito requintado. Os cómicos adoravam imitar este negro que se expres­sava como um branco. Em privado, muita gente dizia que havia algo fingido com o Trevor MacDonald. Para complicar as coisas  sempre tive muito interesse num outro jornalista negro da BBC, Wesley Kerr. O distintivo nele era que falava o Inglês com um sotaque marcadamente das Caraíbas. Soube, depois, que o Wesley Kerr não só tinha nascido na Inglaterra, como tinha sido adoptado por uma família branca; ele sempre teve acesso a instituições de elite, incluindo a universidade de Cambridge.
Temos aqui, então, um negro que teria toda razão em falar como um branco, mas que faz tudo para ter sotaque de negro. Es­tamos, sem dúvida, em territórios compli­cadíssimos nesta matéria.

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