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| Al Felix |
(O Barco de Angola em Águas Turvas Prosseguirá?)
Com um senso de humor aguçado, John Kenneth Galbraith certa feita disse que “fazer previsões é muito difícil, especialmente sobre o futuro”. Todavia, é exatamente partindo de tal pressuposto – aliás, ninguém jamais ousou fazer previsões do passado – que tento me debruçar na impossível tarefa de “profetizar” o que está porvir. Se o farei concordante não sei, mas basta olharmos para o passado, estudarmos o presente, para, enfim, deduzirmos comportamentos futuros.
Alguns pontos cruciais chamam-me a atenção quando a “vaga análise” é a observação do passado e do presente de Angola, que são:
O fortalecimento, ou apoderamento dos Angolanos, contribuirá para que adquiram maior sentimento de pertencer a esses homogêneos, porém, retalhados povos de Angola;
A escassez de recursos e persistente pobreza causarão maior estresse no negado desenvolvimento sustentável que será, por sua vez, pontencializado por mudanças climáticas inegáveis (haja vista a atual crise energética, que tem como pano de fundo, o baixo nível do caudal do rio Kwanza), isso sem citar a nossa possível Doença Holandesa, caso sustentemos todo desenvolvimento exclusivamente no petróleo;
As demandas públicas sem respostas adequadas evidenciarão as crescentes deficiências do Governo que, e de modo concomitante, achar-se-á em meio a mudanças de poder de Estados regionais num mundo policêntrico e emergente.
Segundo as projeções do Banco Mundial, em 2025 teremos uma população de mais 27 milhões de habitantes e grande parte de tais indivíduos enfrentará os altos e baixos próprios de países com as realidades de Angola.
Obviamente que até lá os cidadãos serão mais influentes e afluentes que seus antecessores de gerações passadas, sobretudo porque um número crescente vem sendo beneficiado pela “era da informação”, diminuindo o denominado “digital divide”. No entanto, boa parte da população amargará ostracizada à marginalização por falta de infraestruturas que poderão impedir a chegada da eletricidade, da água canalizada, da educação, etc.
O aumento do nacionalismo será cada vez mais evidente e clamará por direitos de acesso à educação gratuita e de qualidade, à saúde, ao emprego digno e à observância dos direitos dos consumidores pautados na lei, tudo isso na medida em que, paralelamente, houver o potente favorecimento aos expatriados que atuam nos setores públicos e/ou privados.
Prevejo que a convergência de preocupações e o aumento vocalizado das reivindicações se contrastarão com a capacidade do Governo em atendê-las, mormente aquelas que se referem à melhoria da qualidade de vida. Pela obviedade de Luanda ser das metrópoles mais caras do mundo e a única que não oferece condições propícias, em comparação àquelas que estão em seu nível classificatório (como, por exemplo, Tóquio). Esses “gaps” serão, portanto, fontes permanentes de tensões e conflitos sociais, podendo ser agudizados pela ineficácia dos dirigentes e falta de respostas rápidas por parte destes.
Creio que o fortalecimento da identidade Angolana, na medida em que nos enxergarmos como sendo mais iguais do que tribalmente diferentes, também terá suas consequências, particularmente em meio à sociedade civil, abarcando grande impacto em como as políticas públicas serão conduzidas. Nisso, o crescente acesso a internet poderá trazer maior engajamento nos assuntos de natureza política.
Meu temor é que todas essas demandas sociais, sejam elas justas ou não, venham a pressionar as instituições e partidos democráticos, que propenderão a abrir espaço para certo populismo radical, cuja saída poderá caminhar para a tentação do autoritarismo (sem isentar quaisquer que sejam as forças políticas em jogo).
Apesar do progresso a que Angola passará, sistemas educacionais fracos, pautados apenas no ganho para alguns, sem, portanto, um comprometimento com a qualidade, bem como o prevalecimento de doenças (epidêmicas ou não), se porão como impedimentos quase que intransponíveis para o desenvolvimento humano.
A corrupção (no nosso caso, endêmica) será certamente um fator de restrição ao desenvolvimento sustentável, e irá funcionar (quer aceitemos ou não) como um dos principais obstáculos à inclusão social (hoje vivemos essa realidade) e à coesa operacionalidade da economia de mercado.
O modelo de economia de mercado prevalecente no desenvolvimento centralizado em “conglomerados familiares” vinculados as divisas públicas continuará fortemente a ser questionado até que ceda. E cederá!
Maior regulação e fiscalização nas operações financeiras será uma consequência daqueles questionamentos sobre o modelo de economia de mercado, que aqui surgirá na forma de “pôr o dedo na ferida” para se saber de que maneira as transações – envios e recebimentos de remessas para e do exterior – se operacionalizam.
Angola se verá ainda obrigado a aprender, se quiser se industrializar, o jogo e o exercício do protecionismo nas relações e nas trocas comerciais.
As “mídias” tradicionais, sobretudo as estatais e não só, terão que se ajustar ao “jornalismo do cidadão”, aquele que fala a linguagem do cidadão, que se pauta, porém, na ética profissional sem, portanto, se ausentar da aceitação do uso das mídias sociais, blogs e websites.
Friso também que as mudanças climáticas trarão sérias consequências e afetarão os padrões de vida (e de segurança pública) pela exacerbação da falta de água e de alimentos básicos da agricultura. As degradações do meio ambiente, que hoje em Angola vai, por certo, a passos largos e sem sérios levantamentos e estudos dos impactos inerentes, poderão provocar afrouxamento, sobretudo, no crescimento econômico.
A escassez da água tenderá a ser um fator desestabilizador entre as populações. Crises energéticas nos sensibilizarão e demonstrarão que precisaremos ser mais racionais, mais coerentes e mais competentes, pois estaremos adentrando numa “era de escassez” e se fará urgente a busca de fontes alternativas de energia.
Na questão de segurança nacional e de proteção dos cidadãos, não imagino “nos surtarmos” em guerras civil e/ou militar contra outro Estado. Nossa recente lição nos manterá propensos ao equilíbrio nas decisões de segurança e defesa nacional.
No cenário internacional, num mundo cada vez mais multipolar, a abertura maior pela atuação de atores internacionais conferindo a alguns países poder crescente e intermediário, poderá dar a Angola um papel mais relevante no painel regional, e até mesmo mundial – se, é claro, estivermos dispostos a fazer o nosso dever de casa, os quais sejam: reformas institucionais e políticas com transparências.
Pelo que tudo indica, levaremos algumas décadas até que nos condicionemos, à semelhança das placas tectônicas a acondicionarem-se, rumo a 2025.
© 2012 Al Felix


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