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23 de out. de 2012

ANGOLA: Tendências Futuras que Olham para Nós.

Al Felix


(O Barco de Angola em Águas Turvas Prosseguirá?)

Com um senso de humor aguçado, John Kenneth Galbraith certa feita disse que “fazer previsões é muito difícil, especialmente sobre o futuro”. Todavia, é exatamente partindo de tal pressuposto – aliás, ninguém jamais ousou fazer previsões do passado – que tento me debruçar na impossível tarefa de “profetizar” o que está porvir. Se o farei concordante não sei, mas basta olharmos para o passado, estudarmos o presente, para, enfim, deduzirmos comportamentos futuros.

Alguns pontos cruciais chamam-me a atenção quando a “vaga análise” é a observação do passado e do presente de Angola, que são:

O fortalecimento, ou apoderamento dos Angolanos, contribuirá para que adquiram maior sentimento de pertencer a esses homogêneos, porém, retalhados povos de Angola;

A escassez de recursos e persistente pobreza causarão maior estresse no negado desenvolvimento sustentável que será, por sua vez, pontencializado por mudanças climáticas inegáveis (haja vista a atual crise energética, que tem como pano de fundo, o baixo nível do caudal do rio Kwanza), isso sem citar a nossa possível Doença Holandesa, caso sustentemos todo desenvolvimento exclusivamente no petróleo;

As demandas públicas sem respostas adequadas evidenciarão as crescentes deficiências do Governo que, e de modo concomitante, achar-se-á em meio a mudanças de poder de Estados regionais num mundo policêntrico e emergente.

Segundo as projeções do Banco Mundial, em 2025 teremos uma população de mais 27 milhões de habitantes e grande parte de tais indivíduos enfrentará os altos e baixos próprios de países com as realidades de Angola.

Obviamente que até lá os cidadãos serão mais influentes e afluentes que seus antecessores de gerações passadas, sobretudo porque um número crescente vem sendo beneficiado pela “era da informação”, diminuindo o denominado “digital divide”. No entanto, boa parte da população amargará ostracizada à marginalização por falta de infraestruturas que poderão impedir a chegada da eletricidade, da água canalizada, da educação, etc.

O aumento do nacionalismo será cada vez mais evidente e clamará por direitos de acesso à educação gratuita e de qualidade, à saúde, ao emprego digno e à observância dos direitos dos consumidores pautados na lei, tudo isso na medida em que, paralelamente, houver o potente favorecimento aos expatriados que atuam nos setores públicos e/ou privados.

Prevejo que a convergência de preocupações e o aumento vocalizado das reivindicações se contrastarão com a capacidade do Governo em atendê-las, mormente aquelas que se referem à melhoria da qualidade de vida. Pela obviedade de Luanda ser das metrópoles mais caras do mundo e a única que não oferece condições propícias, em comparação àquelas que estão em seu nível classificatório (como, por exemplo, Tóquio). Esses “gaps” serão, portanto, fontes permanentes de tensões e conflitos sociais, podendo ser agudizados pela ineficácia dos dirigentes e falta de respostas rápidas por parte destes.

Creio que o fortalecimento da identidade Angolana, na medida em que nos enxergarmos como sendo mais iguais do que tribalmente diferentes, também terá suas consequências, particularmente em meio à sociedade civil, abarcando grande impacto em como as políticas públicas serão conduzidas. Nisso, o crescente acesso a internet poderá trazer maior engajamento nos assuntos de natureza política.

Meu temor é que todas essas demandas sociais, sejam elas justas ou não, venham a pressionar as instituições e partidos democráticos, que propenderão a abrir espaço para certo populismo radical, cuja saída poderá caminhar para a tentação do autoritarismo (sem isentar quaisquer que sejam as forças políticas em jogo).

Apesar do progresso a que Angola passará, sistemas educacionais fracos, pautados apenas no ganho para alguns, sem, portanto, um comprometimento com a qualidade, bem como o prevalecimento de doenças (epidêmicas ou não), se porão como impedimentos quase que intransponíveis para o desenvolvimento humano.

A corrupção (no nosso caso, endêmica) será certamente um fator de restrição ao desenvolvimento sustentável, e irá funcionar (quer aceitemos ou não) como um dos principais obstáculos à inclusão social (hoje vivemos essa realidade) e à coesa operacionalidade da economia de mercado.

O modelo de economia de mercado prevalecente no desenvolvimento centralizado em “conglomerados familiares” vinculados as divisas públicas continuará fortemente a ser questionado até que ceda. E cederá!

Maior regulação e fiscalização nas operações financeiras será uma consequência daqueles questionamentos sobre o modelo de economia de mercado, que aqui surgirá na forma de “pôr o dedo na ferida” para se saber de que maneira as transações – envios e recebimentos de remessas para e do exterior – se operacionalizam.

Angola se verá ainda obrigado a aprender, se quiser se industrializar, o jogo e o exercício do protecionismo nas relações e nas trocas comerciais.

As “mídias” tradicionais, sobretudo as estatais e não só, terão que se ajustar ao “jornalismo do cidadão”, aquele que fala a linguagem do cidadão, que se pauta, porém, na ética profissional sem, portanto, se ausentar da aceitação do uso das mídias sociais, blogs e websites.

Friso também que as mudanças climáticas trarão sérias consequências e afetarão os padrões de vida (e de segurança pública) pela exacerbação da falta de água e de alimentos básicos da agricultura. As degradações do meio ambiente, que hoje em Angola vai, por certo, a passos largos e sem sérios levantamentos e estudos dos impactos inerentes, poderão provocar afrouxamento, sobretudo, no crescimento econômico.

A escassez da água tenderá a ser um fator desestabilizador entre as populações. Crises energéticas nos sensibilizarão e demonstrarão que precisaremos ser mais racionais, mais coerentes e mais competentes, pois estaremos adentrando numa “era de escassez” e se fará urgente a busca de fontes alternativas de energia.

Na questão de segurança nacional e de proteção dos cidadãos, não imagino “nos surtarmos” em guerras civil e/ou militar contra outro Estado. Nossa recente lição nos manterá propensos ao equilíbrio nas decisões de segurança e defesa nacional.

No cenário internacional, num mundo cada vez mais multipolar, a abertura maior pela atuação de atores internacionais conferindo a alguns países poder crescente e intermediário, poderá dar a Angola um papel mais relevante no painel regional, e até mesmo mundial – se, é claro, estivermos dispostos a fazer o nosso dever de casa, os quais sejam: reformas institucionais e políticas com transparências.

Pelo que tudo indica, levaremos algumas décadas até que nos condicionemos, à semelhança das placas tectônicas a acondicionarem-se, rumo a 2025.

© 2012 Al Felix

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