Data de nascimento: 9 de Abril de 1929
Naturalidade: Huambo
Lúcio Rodrigo Leite Barreto de Lara
Lúcio Lara, ou Tchiweka (pseudónimo de guerra escolhido por Lara em homenagem à terra da sua mãe, (sendo Tchiweka o nome da aldeia de origem da mãe) nasceu no Huambo em 09 de Abril de 1929. Era o filho de pai português (comerciante e funcionário público) e mãe angolana.
Tendo terminado os estudos secundários no Huambo e Lubango, partiu para Portugal para prosseguir estudos em Química e Física na
Faculdades de Ciências da Universidade de Coimbra e em Lisboa. Em 1949, na Casa dos Estudantes do Império, iniciou as suas atividades políticas e fez parte da direcção da “casa” em Coimbra. Ele fazia também parte do Clube Marítimo Africano, em Lisboa, com Agostinho Neto, Humberto Machado, Zito Van-Dúnem e outros
nacionalistas das colónias portuguesas, clube que na década de 1950 desempenhou um papel significativo na mobilização dos naturais das colónias e na circulação de informações e documentos.
Como um dos fundadores do MAC (Movimento Anti-Colonialista / Movimento Anti-Colonial), que também incluiu Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Mário de Andrade, Noémia de Sousa, Humberto Machado e Eduardo dos Santos, entre outros, Lara dedicou-se ainda mais à actividade política.
Em Março de 1959 foi forçado a sair de Portugal para escapar à prisão, encontrando refúgio na Alemanha. Depois disso, participou na Conferência de Tunis em Janeiro de 1960 como representante do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola / Movimento Popular para a Libertação de Angola) e a recém-criada FRAIN (Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional).
Depois de uma estada em Casablanca em 1960, Lara estabeleceu-se em Conakry para constituir o primeiro Comité Central do MPLA no exterior de Angola. São desse período de turbulência os documentos publicados no primeiro volume das suas memórias políticas, “Um amplo movimento: Itinerário do MPLA através de documentos e anotações de Lúcio Lara”, que nos permitem acompanhar Lara, como ele sobreviveu economicamente como trabalhador não-qualificado e professor, apoiado por sua esposa, que também trabalhava como professora. Ao mesmo tempo, ganhou
acesso à literatura que tinha sido proibida em Portugal. Os contactos então estabelecidos foram muito influentes para o seu contínuo desenvolvimento político. Além dos acima mencionados, este agrupamento incluía pessoas como Viriato da Cruz, Cheik
Anta Diop, Ousmane Sembène e Franz Fanon, bem como os intelectuais mais renomados, políticos ou sindicalistas das colónias africanas ou países recentemente independentes.
Os três volumes cobrem três diferentes períodos (até Fevereiro de 1961, 1961 – 1962 e 1963 -1964), e contêm correspondência e cartas, manuscritos, memorandos, recortes de imprensa e fotografias.
A maioria dos materiais são em português, mas alguns exemplares originalmente escritos em outras línguas estão traduzidos para o Português nesses volumes.
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CHE E ANGOLA
As memórias de Paulo Lara sobre o encontro de Che Guevara com Agostinho Neto, Lucio Lara e outros dirigentes do MPLA, que marcou, em 1965, o inicio das relações entre Cuba e Angola. Trata-se de um testemunho pessoal, relatado com a sensibilidade e profundidade analitica proprias de quem, tendo observado, vivido e sentido momentos ímpares da História de Angola, de África e do Mundo, não deixa, contudo, que ao seu olhar sobre eles falte objectividade e sentido critico:
Há 40 anos desapareceu uma figura que se tornou lendária no mundo inteiro. Na linguagem agora em voga, poderíamos até dizer “globalizada”. Mas, para os angolanos, não se trata simplesmente desta figura que vemos passar colada aos carros, em algumas bandeiras ou nas tatuagens agora na moda em alguns jovens. Trata-se sobretudo daquele que protagonizou as primeiras relações oficiais entre o Estado Cubano e um Movimento de Libertação Angolano. Tendo sido, com muitos outros, um mero assistente do encontro em Brazzaville, a pedido de alguns amigos, decidi-me a fazer este pequeno relato testemunhando alguns momentos da visita de Ché Guevara à delegação do MPLA naquela cidade, num dos primeiros dias do mês de Janeiro de 1965.
Ao invés de visões sensacionalistas, ideológicas ou imaginativas que têm caracterizado algumas referências feitas ao revolucionário cubano-argentino, procurou-se relatar aqui um momento histórico que ligou aquela figura ao continente africano, e mais particularmente a Angola. Figura extremamente polémica no seio do movimento revolucionário mundial em meados do século passado, Ché Guevara não deixou de ser aquele que estabeleceu as relações diplomáticas de Cuba com vários actores internacionais africanos (e não só), sendo estes, Estados ou Movimentos de Libertação.
Para um melhor entendimento daquele período, e para estimular o interesse à leitura e o estudo da nossa história e não só, incluímos a visão de dois protagonistas e de um historiador. O de Jorge Risquet, que foi o primeiro responsável do destacamento cubano que seguiu para o Congo Brazzaville donde sairiam alguns instrutores para treinar os angolanos, e que posteriormente viria a ser o chefe da missão cubana na República Popular de Angola, que resumidamente explica os principais contactos feitos por Ché no Congo. O do historiador americano Piero Gleijeses que teve acesso a diferentes fontes abertas e ainda confidenciais sobre as relações de Cuba com o continente africano, que se refere ao possível conteúdo do encontro tido, bem como a uma polémica visita realizada a uma base guerrilheira do MPLA por Jorge Serguera, primeiro embaixador cubano na Argélia e que acompanhou Guevara durante parte do seu recorrido africano, cujo relatório teria levado a uma avaliação incorrecta de Cuba sobre as verdadeiras capacidades do movimento nacionalista. Inserimos aqui um contributo nosso baseado em alguns documentos e entrevistas em torno desta visita.
O extracto do relatório de Ché Guevara, elaborado depois da sua retirada das matas congolesas da região dos Grandes Lagos, permite apreciar a ideia geopolítica que tinha para aquela parte do continente africano.
Com base nos dados actualmente existentes, incluímos uma cronologia de contactos havidos entre angolanos e cubanos, no quadro da luta nacionalista, antes do encontro oficial de Brazzaville. A efectivação de um provável encontro entre Ché Guevara e Savimbi durante o seu famoso périplo africano tem sido motivo de referência por alguns historiadores. Achamos oportuno inserir uma análise de Jorge Risquet em que demonstra a grande improbabilidade do mesmo se ter realizado.
Paulo Lara
PARA O 80º ANIVERSÁRIO DE LÚCIO LARA
(de Armando Myre Dores)
Conheci Lúcio Lara em 1955, por intermédio da sua mulher e companheira de sempre, Ruth, então minha colega no Instituto Superior Técnico.
Começámos a conviver nessa época em que eu me encontrava organizado no MUD Juvenil, de que eles também tinham sido aderentes. Nesse tempo não contávamos muito uns aos outros o que fazíamos politicamente, mas era patente a nossa afinidade no plano político e ideológico. A pouco e pouco comecei a frequentar a casa da Ruth, nas Amoreiras, e depois a casa do casal na rua do Sol ao Rato.
Os dois viviam modestamente, mas com grande dignidade. Recebiam-me sempre com grande afabilidade, conversávamos longamente sobre muita coisa e, é claro, sobre as nossas preocupações políticas. Embora nunca mo tivesse dito, eu apercebia-me que o Lúcio estaria ligado a qualquer organização clandestina anti-colonialista. Mais tarde entrei no Partido Comunista e continuei a manter uma relação muito cordial e amiga com o simpático casal.
Eu convidava-os para as iniciativas culturais e de convívio organizadas pelos estudantes progressistas do Técnico e não só. Embora vissem essas actividades com muita simpatia, eu notava que o Lúcio evitava participar para evitar prejudicar a sua actividade anti-colonialista que, tal como a nossa actividade política, exigia os maiores cuidados para não sermos detectados pela PIDE.
Lembro-me que, certa vez, tendo-me apercebido que o casal Lara falava muito com um estudante de origem goesa que nós, no Técnico, tínhamos como informador da PIDE, os alertei para esse facto. Mais tarde, vim a saber que tinha estado quase a ser convidado para uma reunião do grupo anticolonialista, o que foi evitado à última hora.
Ajudávamo-nos mutuamente no cumprimento das nossas tarefas nas organizações de que fazíamos parte, nomeadamente no que respeita a apoio nas casas para reuniões e nos transportes clandestinos.
As nossas relações eram cada vez mais amistosas e, quando o Paulo nasceu, fui convidado, junto com a poetisa moçambicana Noémia de Sousa, para padrinho do primeiro filho, o que aceitei com muito gosto.
Nessa altura o Agostinho Neto estava preso no Porto aguardando julgamento no “processo dos 52”, sob a acusação de pertencer à Comissão Central do MUD Juvenil.
Indo eu passar uns dias de férias ao Porto, o Lúcio pediu-me para levar umas revistas e outras encomendas para serem entregues ao Agostinho Neto por intermédio do seu advogado, António Macedo. Lembro-me do cuidado com que o Lúcio escolheu esses presentes para o seu camarada, procurando ver o que lhe podia ser mais útil, apesar dos parcos recursos de que dispunha.
O Lúcio era um homem muito culto, bondoso, afável, extremamente honesto e convicto nos seus ideais. Estando organizado numa organização muito responsável e que já desenvolvia uma importante actividade, nunca se vangloriava dessa sua actividade.
Em Outubro de 1957 realizou-se o V Congresso do P.C.P., em que participei.
Como é evidente, nós não sabíamos quem eram os outros participantes nem sequer que íamos participar num congresso do Partido, apenas sabíamos que iríamos para uma reunião prolongada de uma semana. Entrámos para a casa onde se ia realizar o congresso com todos os cuidados conspirativos e em grupos separados. Qual não foi a minha surpresa quando vi que o meu amigo Lúcio Lara também ia participar. Cumprimentámo-nos com grande amizade e satisfeitos por nos vermos ali. Este congresso teve uma grande importância pela tomada de posição do P.C.P. sobre a luta dos povos coloniais, tendo sido aprovada uma declaração em que se fazia o” reconhecimento incondicional do direito dos povos das colónias portuguesas de África à imediata e completa independência” . Durante vários anos, o P.C.P. foi a única organização política portuguesa que defendeu tal posição. Lembremos que, ainda no começo dos anos 60, um documento chamado” Programa para a democratização da república” do sector moderado da Oposição portuguesa, defendia uma solução neo-colonialista.
E é claro que não foi casual a participação do Lúcio numa comissão para discutir essa posição do Congresso.
Por essa altura, quando a nossa confiança já era maior, o Lúcio aludiu-me com extremos cuidados à formação do Partido Comunista de Angola, que, como se sabe, se tentara organizar em Luanda em 1955.
Em Março de 1959, o Lúcio e a família, na iminência de serem presos pela PIDE, fugiram para a Alemanha. Em Agosto do mesmo ano, passei à clandestinidade como funcionário do P.C.P.
Deixámos de nos ver por um longo período. Em 1968, encontrámo-nos em Moscovo, onde eu trabalhava como tradutor na Rádio Moscovo.
Tivemos uma longa conversa na Universidade Patrice Lumumba, onde ele se deslocara para falar com estudantes angolanos a estudar na U.R.S.S.
Falou-me das difíceis condições em que o M.P.L.A. tinha que lutar, dos esforços para alargar a luta armada e dos problemas da África em geral. Mais uma vez confirmei a grande firmeza política do Lúcio, a sua sensatez e vastidão de conhecimentos com uma visão global dos acontecimentos.
Numa situação internacional muito complexa, encarava os problemas do movimento comunista internacional com grande independência de espírito.
Só voltei a ver o Lúcio depois do 25 de Abril. Mas sempre que tenho falado com algum angolano ou português que tenha estado em Angola, ao falar do Lúcio Lara, dão-me as melhores referências à sua postura impoluta como grande patriota e revolucionário.
Longa vida para ti, camarada e amigo Lúcio, junto do Paulo, da Wanda, do Bruno e de todos os que te são queridos.
22 de Setembro de 2008
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LUCIO LARA, o meu testemunho.
(de Edmundo Rocha)
O ambiente político internacional, após a 2ª guerra mundial, caracterizava-se pelo conflito crescente entre as duas grandes potências e pela emergência do Período Histórico da Descolonização.
Estes acontecimentos tiveram repercussões importantes tanto na metrópole, em Portugal, como na consciência dos povos colonizados, e, em especial, nas suas elites em Luanda, em Bissau, na Praia e em Lourenço Marques, como também entre os jovens estudantes africanos em Lisboa em Coimbra. O Portugal de Salazar permanecia, no entanto, mental, ideológica e estruturalmente no passado, incapaz de se adaptar às novas correntes de pensamento moderno e de aproveitar as novas oportunidades de progresso político, económico e social não só para os portugueses como também para os povos colonizados.
Foi neste contextos sócio-político que dois estudantes angolanos, J. Castro Lopo e Lúcio Lara, se instalaram em minha casa, em Lisboa, no final dos anos quarenta. Eles iam começar estudos universitários e eu estava a acabar o Liceu. De alguns anos mais novo, eu olhava para eles com um misto de admiração e respeito. No entanto, o caminho desses dois jovens divergiu rápida e abruptamente, o primeiro orientando-se para os mais altos cargos da magistratura portuguesa e o segundo, Lúcio Lara, seguido as sereias da luta política anti-fascista a anti-colonial. Com um elevado sentido de missão e entrega total, Lúcio Lara atingiu rapidamente elevados patamares de responsabilidade não só nas lides associativas na Secção de Coimbra da Casa dos Estudantes do Império e, depois, no Clube Marítimo Africano, em Lisboa, mas também mais tarde, na perigosa luta clandestina antifascista e, posteriormente, na condução da luta nacionalista.
Lúcio Lara foi um raro exemplo de tenacidade, constância e coerência ideológica ao longo da sua vida.Com um carácter frio, rigoroso, asceta e impoluto manifestou sempre uma fidelidade a toda aprova aos ideais comunistas, à libertação de Angola e a Agostinho Neto por quem, desde os tempos de estudante em Coimbra, nutre uma profunda amizade, cimentada ao longo de todas as lutas e esperanças comuns e de quem seria o companheiro, o confidente e o conselheiro mais próximo.
Não frequentou os salões da Liga Nacional Africana em Luanda, nem as tertúlias nos quintais de Luanda onde muitos nacionalistas se conheceram e jogaram à bola de trapos. Não esteve na origem do Partido Comunista Angolano, nem do PLUAA, nem do MIA, nem “subscreveu o MANIFESTO de 1956. Mas, desde os fins dos anos quarenta, esteve sempre na vanguarda das lutas políticas, primeiro no MUD juvenil e muito próximo do PCP. A PIDE afirma(1) que Lúcio Lara “pertenceu aos quadros do PCP, responsável pelo sector ultramarino”.
No decurso do seu percurso agitado, tive ocasião de cruzar-me com ele por várias vezes, não só quando ele viveu em minha casa, nos anos quarenta, como depois, em Coimbra na Casa dos Estudantes do Império e no Ateneu. Quando , em 1954, regresso de Paris, transmito aos “Mais Velhos” notícias do Mário de Andrade e de Marcelino dos Santos. Depois, em fins de 1957, num encontro em Lisboa, quando Lúcio me transmite a necessidade em reunir os jovens estudantes africanos da C.E.I. no seio do Movimento Anticolonialista (MAC). Mais tarde, em 1958 quando participo em várias reuniões da cúpula do MAC em casa do Amílcar ou em minha casa, enfim, em 1961, no Congresso da UGEAN em Rabat; e, meses depois, em Leopoldville, na organização do CVAAR-MPLA. Muito mais tarde, em 1975, quando numa reunião do Comité Central do MPLA, em Luanda, transmito o resultado da missão que o Neto me encarregara, a de obter o reconhecimento formal do jovem governo angolano, pela Argélia, pela Tunísia, por Marrocos e pela Mauritânia. Depois, muito mais tarde, em sua casa, em Luanda quando demos um forte abraço de reencontro.
Já prestei a devida homenagem a esse grande lutador pela libertação de Angola no meu livro, sobre “a génese do nacionalismo moderno angolano”(2). A crónica da sua vida preencheria certamente centenas de páginas, o que não me é permitido neste modesto testemunho. Por isso vou abordar apenas dois acontecimentos que me parecem relevantes por permitirem esclarecer alguns aspectos da história do Lúcio e também do MPLA, que ele ajudou a fundar.
A 2ª CONFERENCIA PAN AFRICANA, em TUNES (Tunísia), em Janeiro de 1960:
O movimento nacionalista angolano e guineense, de inspiração marxista, sofreu em Janeiro de 1960, uma transformação qualitativa, uma verdadeira mutação, quando quatro nacionalistas oriundos de Angola, da Guiné e de S. Tomé participaram, pela primeira vez, em Tunes, num fórum político de chefes de estado africanos.
Até então, a actividade dos nacionalistas africanos das colónias portuguesas tinha-se caracterizado por uma certa improvisação, espontaneidade e participação em organizações frágeis, o que conduziu em 1959 em Luanda a serem facilmente permeáveis à infiltração de “bufos” pela PIDE e a sofrerem uma vaga de prisões, o que constituiu um revés sério para o movimento nacionalista angolano. Dessa vasta ofensiva policial apenas escaparam poucos nacionalistas que vieram mais tarde a reunirem-se no MINA (Movimento pela Independência de Angola), que veio a constituir a base de apoio a Agostinho Neto, recém-chegado a Luanda, em fins de 1959.
Em Lisboa, o Movimento Anticolonialista (MAC) era constituído pelos “Mais Velhos”, forjados na militância no MUD Juvenil/PCP, em associação estreita com um numeroso grupo de jovens estudantes africanos, saídos da Casa do Estudantes do Império. Pelos próprios métodos da clandestinidade, o MAC enquistou-se demasiado, impedindo acções de envergadura, e nunca fizeram tremer o fascismo e o colonialismo português. Entretanto, entre Novembro de 1957, momento da criação do MAC em Paris e Janeiro de 1960, data da 2ª Conferência Pan-Africana em Tunes, a única organização política que mobilizava a juventude africana na Europa, sobretudo Lisboa e Paris, era o MAC. Toda a correspondência trocada entre L. Lara, Mário, Viriato assim como as cartas clandestinas para Lisboa, giravam à volta dos projectos e das actividades do MAC(3).
Após a chegada de Lúcio Lara e de sua mulher, Rute, a Furstenwald, perto de Frankfurt-sur-Meine, em Março de 1959, as relações com Viriato da Cruz tornaram-se muito estreitas e as trocas epistolares entre os dois nacionalistas mostravam o alto nível de companheirismo. Embora apoiando Lara na sua luta para afirmar o MAC no campo internacional (4), Viriato emite progressivamente, mas cada vez com maior acutilância, sérias reservas sobre a capacidade operacional assim como da oportunidade histórica desse movimento de intelectuais no exterior dos seus países, totalmente separados das massas populares em Angola e nas outras colónias.
Essas críticas, no entanto, não o impedem de trabalhar em parceria com Lúcio e com Mário na elaboração do MANIFESTO do MAC e de enviar em Dezembro de 1959 uma petição ao Secretário-Geral da ONU, denunciando, em nome do MAC, a política repressiva do governo português em Angola.
Entretanto, todos sentiam a necessidade imperiosa de retornarem a África, afim de melhor dirigirem a luta anticolonialista. Foi Lúcio Lara e Rute quem primeiro partiram para a Tunísia, em Dezembro de 1959, e aí entraram em contacto com Reda Maleck e Franz Fanon, dirigentes do FNL argelino e com o partido tunisino no poder, o Neo Destour. É Lúcio também quem preside à delegação do MAC, que compreende não só Lúcio e Viriato, como também Hugo de Menezes e Amílcar Cabral, que se lhes reúnem nos últimos dias da Conferência. É Lúcio também quem faz o discurso em nome do MAC.
O binómio Lúcio Lara e Viriato da Cruz mantinha até aí uma coordenação perfeita no exílio, na Alemanha, antes da 2ª Conferencia Pan-Africana em Tunes(5). Lara já estava ao corrente das ideias de Viriato “sobre a criação de organizações nacionais, de cada colónia, articuladas num Conselho de Colaboração e de Coordenação supra nacional” por carta de 13. Outubro. 1959(6).
E como a Conferência não aceitava integrar no seu seio organizações de militantes africanos, plurinacionais, como era o caso do MAC, as ideias de Viriato encontraram uma plena aceitação por parte de Lara, de Amílcar Cabral e de Hugo de Menezes. O MAC transformou-se no FRAIN (Frente Revolucionária Africana pela Independência Nacional dos Povos sob Domínio Colonial Português), que passou a agrupar o PAI (Partido Africano da Independência), pela Guiné, dirigido por Amílcar Cabral, e pelo Movimento Popular de Libertação de Angola, nome esse repescado no MANIFESTO de 1956.O PAI e o MPLA foram então aceites pelo Secretariado da Conferência, que já integrava entretanto a UPA (desde a Conferência em Accra, em 1958).
Tunes(7) constituiu para os nacionalistas africanos das colónias portuguesas um marco muito importante senão determinante nos longos anos de combate ao fascismo e ao colonialismo português, uma luta levada a cabo por militantes imbuídos de um grande ideal, expressa numa literatura de resistência e de combate e por inúmeros panfletos onde exprimia as suas dores, as suas frustrações, o seu desespero e as suas aspirações. Em Tunes, Lúcio Lara e Viriato da Cruz sentiram que, para o futuro, a luta anticolonial iria exigir deles um muito maior empenhamento, uma dádiva total ao objectivo da conquista da liberdade dos seus povos. Em Tunes, atingiram a etapa adulta tornando-se revolucionários profissionais, em quem o povo angolano e os dirigentes africanos passaram a depositar as maiores esperanças.
Hugo de Menezes que então exercia medicina em Conackry (Guiné) teve um papel determinante na obtenção de condições materiais e políticas que iriam permitir acolher Viriato, Lara, Amílcar e, mais tarde, Mário, Eduardo dos Santos e Américo Boavida. No entanto, Conackry não constituía uma base propícia ao desenvolvimento da luta, visto apresentar numerosos constrangimentos: não só nas comunicações, nos transportes e por se encontrar muito longe das fronteiras angolanas e dos grandes centros políticos mundiais.
Por isso, as grandes prioridades nessa altura era a de entrar em contacto com Lisboa e com Luanda, e preparar a mudança para o Congo-Leopoldville.
Em Lisboa existia não só alguns “Mais Velhos” e de um numeroso grupo de estudantes africanos que se encontravam organizados no seio do Movimento dos Estudantes Angolanos. Esses contactos clandestinos faziam-se através da Embaixada Egípcia por onde começaram a chegar, em 1960, vários documentos de denúncia do colonialismo português com a chancela MPLA, assinados por Mário de Andrade, Viriato da Cruz e Lúcio Lara(8).
LARA EM BRAZZAVILLE.
Lúcio Lara foi o principal artesão do restabelecimento dos contactos entre o MPLA no exterior (Conackry) e o pequeno núcleo de militantes agrupados no seio do MINA (Movimento pela Independência Nacional de Angola), os quais tinham escapado à vaga de prisões dos nacionalistas em 1959, em Luanda.
Entretanto, Neto tinha acabado o curso de medicina em Lisboa e regressado à sua terra natal. Na altura em que Lúcio pousa o pé em terra africana, em Tunes o seu alter-ego Agostinho Neto também pisa o solo angolano, após uma dezena de anos de ausência mas de intensa actividade política e cultural que lhe granjearam um grande carisma. Presente em todas actividades africanas e nacionalistas em Portugal, Agostinho Neto soube imprimir uma dimensão histórica à tomada de consciência de todos os jovens africanos. O retorno à terra natal revelou um acto de grande coragem moral e física. Em princípios de 1960, Neto aceita o convite feito pelos jovens nacionalistas do MINA não só para corrigir dois panfletos mas também para integrar o grupo do MINA. Em Março desse ano, Pedro Pacavira é enviado pela Direcção do MINA a Brazzaville para se encontrar com Lúcio Lara, portador de directrizes dos dirigentes do MPLA, sediados em Conackry.
De regresso a Luanda, em Maio de 1960, Pacavira transmite ao grupo do MINA informações sobre a criação do MPLA na Conferencia de Tunes, os objectivos da Direcção Provisória, os projectos para se transferirem para Leopoldville , assim como a directriz indicando a Agostinho Neto
“A necessidade de unificação dos movimentos nacionalistas em Luanda, os quais deveriam passar a utilizar o nome de Movimento Popular de Libertação de Angola, pois que ele (Lúcio Lara), Viriato e Mário estavam a representar no estrangeiro o M.P.L.A. e era necessário que tal “Movimento” existisse (no interior de Angola)”.
Nessa reunião, no primeiro domingo de Maio de 1960, em que Pacavira informa os seus camaradas do encontro com Lúcio Lara, decide-se a mudança do nome de MINA para o de MPLA assim como a estruturação do movimento(9). Este contacto , realizado por Lúcio Lara, constituiu a primeira ponte entre os nacionalistas do interior, e o MPLA sediado no exterior em Conackry (Guiné).
Ao trazer à luz estes dois factos históricos perfeitamente documentados, permitem demonstrar as qualidades de disciplina e de coragem que Lúcio Lara demonstrou nessas alturas, mas também durante a luta pela independência e mesmo depois. Contra ventos e marés, Lúcio Lara soube sempre manter uma linha política anticolonialista, antifascista e marxista. Com uma postura impoluta não foi capaz, no entanto, de impedir a instalação de uma cultura de intolerância e de corrupção. Pela sua tenacidade, inteligência, sensibilidade e fidelidade à suas causas, soube sempre manter-se ganhador, mesmo quando tudo parecia perdido.
Após seis décadas de intensa militância em prol dos seus ideais, só nos resta saudá-lo e desejar-lhe muitos anos de vida.
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Tchiweka
“Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis”
Bertold Brecht

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