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17 de mar. de 2011

Portrait Of Angolan Leaders : Agostinho Neto

Agostinho Neto
Dr António Agostinho Neto

Agostinho Neto

1922 - As cinco horas do dia dezassete de Setembro nasce Agostinho Neto em Kaxicane, freguesia de S. José, conselho de Icolo e Bengo, Distrito de Luanda, filho de Agostinho Neto, catequista de Missão americana em Luanda, sendo mais tarde pastor e professor nos Dembos, e de Maria d Silva Neto, professora.
1934 - A dez de Junho obtém o certificado da escola primária, que frequentou em Luanda.
1937 - Os seus pais mudam-se para Luanda, onde Agostinho Neto prossegue os seus estudos secundários no Liceu Salvador Correia.
1944 - Completa o 7º ano dos Liceus, obtido no Liceu Salvador Correia, de Luanda.
         -Sendo funcionário dos serviços de saúde deixa Angola e embarca para Portugal, a fim de frequentar a Faculdade de Medicina de Coimbra.
         -Integra-se e participa nas actividades sociais, politicas e culturais da secção de Coimbra da Casa dos Estudantes do Império, com sede em Lisboa, que esteve sob o regime compulsivo de “direcção administrativa” (nomeada pelo Governo) desde 1951 até 1957.
1947 - Surge o grupo que actua sob o lema “vamos Descobrir Angola”, que dá origem ao Movimento dos Jovens Intelectuais de Angola de que Agostinho Neto foi elemento integrante, embora vivendo em Portugal. 
1948 - É concedida a Agostinho Neto uma bolsa de estudos pelos Metodistas americanos.
          - Transfere a sua matrícula para a Faculdade de Medicina de Lisboa, cidade onde passa a residir e onde continua a sua actividade cultural e politica no seio da Casa dos Estudantes do Império.
         - Funda em Coimbra, com Lúcio Lara e Orlando de Albuquerque a revista Momento, na qual colabora.
1950 - Publicação em Luanda, da revista Mensagem, órgão da Associação dos Naturais de Angola, de que se publicaram 4 números (2 cadernos, sendo o ultimo em 1952, no qual Agostinho Neto colabora).
        - Preso pela PIDE, em Lisboa, quando recolhia assinaturas para a conferência Mundial da Paz de Estocolmo ficando encarcerado durante três meses.
        - Em Lisboa, Agostinho neto, de parceria com Amilcar Cabral, Mário de Andrade, Marcelino dos Santos e Francisco José Tenreiro fundam, clandestinamente o Centro de estudos Africanos, que tinham finalidades culturais e políticas orientadas para a afirmação da nacionalidade africana.
1951 - Representante da Juventude das colónias portuguesas junto do MUD - Juvenil (Movimento de unidade democrática - Juvenil) português.
         - Novamente preso pela PIDE, em Lisboa,
1951 - As autoridades policiais acabam com o centro de Estudos Africanos, fundado no ano anterior.
         - Em Lisboa, “com trabalhadores marítimos angolanos funda o Club Marítimo Africano, correia de transmissão entre os patriotas angolanos que se encontravam em Portugal e os que, em Angola, preparavam os Alicerces do movimento de libertação”.
1955 - Preso no mês de Fevereiro e, posteriormente, condenado a dezoito meses de prisão.
1956 - Uma petição internacional circula nos meios intelectuais a pedir a sua libertação que, em França é assinada por nomes altamente prestigiados, como aragon, Simone de Beauvoir, François Mariac, Jean-paul Sartre e o poeta cubano Nicolás Guillén.
        -Em Setembro realiza-se em paris o 1º congresso de escritores e Artistas Negros, no qual participaram escritores das colónias portuguesas, tais com Marcelino dos Santos, e onde foi lamentada a ausência de Agostinho Neto.
       - A 10 de Dezembro funda-se o MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, a partir da fusão de vários movimentos patrióticos, encontrando-se Agostinho neto, nessa data, nas prisões de Lisboa.
1957 - Solto das prisões da PIDE no mês de Julho.
1958 - A 27 de Outubro é licenciado em medicina pela Universidade de Lisboa e no mesmo dia casa com Maria Eugenia Neto.
         -Toma parte na fundação do Movimento Anticolonialista (MAC). Que congregava patriotas das diversas colónias portuguesas para uma acção revolucionária conjunta nas cinco colónias portuguesas: Angola, Guine, Cabo Verde, Moçambique, S. Tomé e Príncipe.
1959 - A 29 de Março, em Luanda, efectuam-se prisões massivas de nacionalistas proeminentes e assiste-se a uma escalada de terror policial.  

        - Em Julho irrompe novas escaladas de terror, mais prisões massivas e sequentes julgamentos em que são aplicadas penas severas aos militantes do MPLA.
         - Nasce em Lisboa, o seu primeiro filho, Mário Jorge Neto aos 9/11/58
         - A 22 de Dezembro, de 1959 acompanhado da mulher e do filho Mário Jorge, de tenra idade, deixa Lisboa regressando a Luanda, onde abre um consultório médico.
         - Agostinho neto ocupa a chefia do MPLA, em território angolano.
1960 - Eleito Presidente Honorário do MPLA.
         - 8 De Junho de 1960 é preso em Luanda. As manifestações de solidariedade diante do seu consultório médico e na sua aldeia são esmagadas pela polícia. Transita para cadeia do Algarve em Portugal, Pouco depois é deportado para o arquipélago de Cabo Verde, ficando instalado na Vila de Ponta do Sol, ilha de Santo Antão; depois transita para Santiago até Outubro de 1962.
1961 - A 4 de Fevereiro é desencadeada a luta armada pelo MPLA, com assalto as cadeias de Luanda, seguindo-se uma forte repressão.
         - A 5 de Fevereiro realiza-se o funeral dos policias mortos durante os ataques as prisões de Luanda e urdem-se pretextos para um massacre sobre os patriotas angolanos.
        - Agostinho Neto é preso na cidade da Praia, ilha de Santiago, Cabo verde e é transferido para as prisões do Aljube, em Lisboa, onde deu entrada a 17 de Outubro de 1962.
1961 - Campanha internacional em prol da libertação de Agostinho Neto. A revista Présence Africaine dedica um número especial a Angola e condena severamente as autoridades fascistas portuguesas, expondo o receio pela vida dos prisioneiros, incluindo Agostinho neto, formulando um apelo universal contra os torturadores da PIDE.
          - The Times publica manifestações de protesto contra a prisão de Agostinho Neto, assinadas por figuras de mais elevada craveira intelectual, como o historiador Basil Davidson; os romancistas – Day Lewis, Doris Lessing, Iris Murdoch, angus Wilson, Alan Silitoe; o poeta Jonh wain; o crítico de teatro inglês Kermeth Tynan; os dramaturgos jonh Osborne e Arnold Wesker.
         - A propósito da resposta inaceitável por parte das entidades portuguesas à denúncia feita por aqueles intelectuais, estes desencadeiam novo e veemente protesto.
     - A peguin Books edita o livro Persecution 1961, da autoria de Peter Benenson, denunciado a situação de nove prisioneiros políticos, entre eles Agostinho Neto, através de artigos para a Imprensa e em carta para a embaixada de Portugal, solicitando os cuidados urgentes, para melhorar a situação de saúde de Agostinho Neto, que se temia pudesse tuberculizar.
      - Fica preso nas prisões do Aljube, em Lisboa, até Março de 1963.
       - Solto das prisões, em Lisboa, com residência fixa na capital portuguesa. Em Junho de 1963 vade-se de Portugal com sua mulher Maria Eugenia Neto e os filhos, Mário Jorge e Irene Alexandra, chegando a Léopoldville (Kinshasa), onde o MPLA tinha a sua sede Exterior.
        - Eleito presidente do MPLA durante a Conferência Nacional do Movimento.
1963 - O MPLA instala-se em Brazaville em consequência da sua expulsão do Congo (R. do Zaire) que passou a dar o apoio total a FNLA.          

        - Abertura de uma frente em Cabinda – a Segunda Região politica - Militar.
1966 - Abertura de nova frente no Leste de Angola - a Terceira Região
1968 - Transfere a sua família para Dar-es-Salaam onde continuará até 1975.
1970 - Galardoado com o prémio Lotus, atribuído pela 4ª Conferência dos Escritores afro-asiático. 
1974 - A guerra nas colónias, componente determinante, conduz a Revolução dos Capitães, em Portugal, a 25 de Abril.
          - Apenas em Outubro o novo regime português reconhece o direito das colónias a independência, após que o MPLA assina o cessar-fogo.
1975 - Em 4 de Fevereiro regressa a Luanda.
         - Está presente no encontro de Alvor, em Portugal, onde é acordado estabelecer um “governo de transição” que inclui o MPLA, Portugal, FNLA e UNITA.                                                                                                                                                                                                                    
- È recebido pela associação Portuguesa de Escritores, na sua sede em Lisboa, que assim o quis homenagear, sendo presidente José Gomes Ferreira e vice-presidente Manuel Ferreira. Acompanhado de sua mulher, Agostinho Neto agradece as saudações que lhe foram dirigidas por José Gomes Ferreira, e apela para que os escritores portugueses continuem fiéis e interessados no processo revolucionário angolano.
          - Em Março, a FNLA declara guerra ao MPLA e inicia o massacre da população de Luanda. Agostinho Neto lidera a resistência popular e apela a mobilização geral do povo para se opor à invasão do pais por forças estrangeiras, pelo Norte e pelo Sul, que procuram impedir o MPLA de proclamar a independência.
1975 - A 11 de Novembro é proclamado seu presidente, continuando Comandante-em-Chefe das forças Armadas Populares de Libertação de Angola e Presidente do MPLA.
         - Membro fundador da União dos Escritores Angolanos, criada em 10 de Dezembro de 1975.
         - Foi o primeiro Reitor da universidade Agostinho neto.
         - Presidente da Assembleia Geral da União dos Escritores Angolanos, cargo que desempenhou até a data do seu falecimento.
         - Reconhecimento da República popular de Angola por mais de uma centena de países.
1976 - O exército invasor Sul-Africano é expulso de Angola a 27 de Março.
1977 - Em 10 de Dezembro cria o MPLA – Partido do Trabalho
1979 - Preside à cerimónia do encerramento da 6ª Conferência dos Escritores Afro – Asiáticos, realizada de 26 de Junho a 3 de Julho, proferindo o discurso de encerramento.
         - A 10 de Setembro, Agostinho Neto falece em Moscovo.


Neste excelente livro o general Del Pino relata também minuciosamente o que se passou em Angola no 27 de Maio de 1977 e a razão política entre Cuba e URSS que o causou. Sugerimos vivamente a leitura deste livro a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre a descolonização de Angola. Colocámos a cor diferente as partes mais críticas para melhor localização. Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir àqueles que vivem em Angola, solicitamos a complacência da Editora e do autor. Obrigado.
Pg. 230/236. - Durante os anos de 1977 e 1978 as tropas cubanas tiveram que enfrentar não só as dificuldades da guerra irregular contra um inimigo que em cada dia se necessitava mais força e melhor organização mas que precisaram de intervir e impor a sua força para manter o governo de Agostinho Neto. Em 27 de Maio de 1977 uma facção pró-soviética do MPLA intentou tomar o poder por meio de um golpe de estado.
À cabeça desta conspiração estava o velho líder do MPLA Nito Alves, considerado por muitos como uma das mais influentes figuras dentro do governo. Uma grande parte dos principais chefes das forças armadas estavam convictos que Nito Alves possuía as melhores condições políticas para dirigir o país, não só pelo seu radicalismo mas por ter sido o principal condutor da guerra de guerrilhas nas selvas angolanas enquanto Neto se encontrava fora do país. Além disso, Nito Alves tinha sido um homem que conseguiu derrotar e expulsar de Luanda a FNLA meses antes da proclamação da independência e foi o ideólogo nas organizações dos Comités do Poder Popular nos musseques de Luanda que tão efectivamente ajudaram a consolidar o poder do MPLA.
Uma cópia do ocorrido na Argélia entre Boumediane e Ben Bela durante a década dos anos 60 surgia novamente neste país africano, só que desta vez os soviéticos, aproveitando as condições de Nito Alves, instigaram um golpe militar para radicalizar mais o governo e fazê-lo totalmente incondicional a Moscovo.
Esta conspiração da URSS sem o conhecimento de Cuba, criou fricções entre ambos os governos, pois ninguém podia compreender que sendo nós os melhores aliados em África, se pudesse intentar uma acção desta natureza sem a aprovação de La Habana. Moscovo considerava que Neto não era um homem de confiança e que uma vez consolidado o seu governo podia ocupar uma posição de aproximação ao Ocidente e mais tarde pactuar com o próprio Savimbi. Além disso estavam convencidos de que para poder enfrentar-se um líder tão carismático como o líder da UNITA, era necessário um homem forte como Nito Alves e não um intelectual como Agostinho Neto.
Os verdadeiros propósitos do golpe ficaram encobertos com o fingido descontentamento desta facção pela influência no governo dos intelectuais mestiços como Paulo Jorge, Lúcio Lara, Iko Carreira e outros.
No dia 27 de Maio de 1977 as tropas golpistas tomaram as principais unidades militares das FAPLA e as instalações de rádio da capital: Quase tinham conseguido os seus propósitos quando se deu um descalabro ao intervirem as tropas cubanas.
Os conspiradores pensaram que os cubanos permaneceriam neutros no conflito. Para eles, era lógico de supor que Moscovo tinha coordenado previamente com La Habana o desenvolver dos acontecimentos. No entanto, ao tomarmos de surpresa aquela situação e não sabendo realmente o que estava sucedendo, deram-se ordens imediatas para proteger o presidente e sufocar a revolta.
Os factos foram tão inesperados para a chefia cubana naquele momento que não dispúnhamos em Luanda uma só unidade militar regular para poder sufocar a rebelião. Tivemos que utilizar um grupo de tanques e carros blindados de um centro de treino sem projecteis de combate para marchar sobre os golpistas.
As tropas sublevadas não podiam suspeitar que os tanques e veículos blindados que irrompiam na capital iam desarmados e já para o entardecer do dia 27 as diferentes guarnições em poder dos rebeldes depunham as armas sem oferecer resistência.
Outros importantes líderes do MPLA e chefes militares das FAPLA estavam implicados na intentona golpista. José Van Dunem comissário político das Forças Armadas; o comandante Jacob João Caetano, chefe de operações das FAPLA, conhecido também como "Monstro Imortal", o ministro do Comércio Interior, David Aires Machado e vários outros ministros e personalidades do MPLA. Estes cabecilhas foram capturados posteriormente, uns pelos cubanos e outros pelas forças leais a Neto. Nito Alves refugiou-se na Missão Militar Soviética e permaneceu escondido nela até ao mês de Julho em que foi detectado pela Inteligência Cubana.

Nito Alves (foto Net)
As conversações secretas posteriores entre La Habana e Moscovo conduziram à entrega do líder rebelde às tropas cubanas por parte dos soviéticos. Fidel Castro ganhava mais uma vez a gratidão do presidente angolano oferecendo-lhe em bandeja de prata o seu principal inimigo. Mais tarde deixava de existir diante do pelotão de fuzilamento. Dezenas de chefes oficiais das FAPLA que apoiaram Nito Alves foram passados pelas armas nas purgas que se sucederam nos meses posteriores ao fracassado golpe de estado.
Não obstante as discrepâncias com a União Soviética por não terem consultado os planos do derrube de Agostinho Neto, o governo de Cuba estava consciente de que devia evitar por todos os meios que se agudizassem as contradições entre a URSS e o MPLA. Em primeiro lugar porque a economia cubana dependente por inteiro da enorme ajuda financeira da URSS podia colocar-se em perigo e em segundo lugar porque sem esse suporte Cuba tão pouco podia enfrentar o enorme custo que representa ter um exército expedicionário a milhares de quilómetros da ilha. Desta maneira, La Habana ocultou a Neto os segredos da conspiração e fez-lhe ver que a participação dos soviéticos no complot se limitava única e exclusivamente a uma actuação liberal do embaixador, sem orientação alguma de Moscovo. Depois de cumprir o seu papel de bode expiatório o diplomático foi retirado discretamente, regressando à União Soviética.
No entanto, o tempo se encarregou de demonstrar aos cubanos o grande erro cometido ao apoiar Neto, ficando evidenciada a sua capacidade de avaliar situações políticas complexas. Os factos posteriores provaram que a inteligência tinha avaliado com maior profundidade o perigo que Neto representava. Os aprendizes caribenhos se deram conta uma vez mais do grande trecho que mediava entre eles e os seus mestres.
Neto não era o líder carismático que sempre foi Savimbi nem tinha a força de carácter de Nito Alves. Não obstante a sua grande inteligência permitia-lhe compreender que uma nação não podia fundar-se de igual maneira que se organiza um acampamento e que as soluções políticas resolviam problemas que não podiam ser resolvidos com canhões e bombas. Que a única paz que o enorme exército expedicionário cubano podia trazer era a dos sepulcros e a sua permanência em Angola somente acrescentaria o interminável derramamento de sangue. Além disso, Neto compreendia que o modelo económico cubano, sustentado sobre uma fictícia economia apoiada custosamente pela URSS, não podia resolver os problemas de Angola.
Assim, desde o princípio de 1978 o MPLA começou uma aproximação dos países ocidentais, incluindo os Estados Unidos e França.
Em Fevereiro desse ano, iniciou conversações oficiais com representantes do governo sul-africano na Ilha do Sal em Cabo Verde tratando de encontrar uma solução pacífica para a independência da Namíbia. Ao mesmo tempo isso lhe facilitaria a retirada das tropas cubanas, cuja presença em Angola era defendida por La Habana com o pretexto da ameaça sul-africana.
No entanto, este esforço de paz não podia de forma alguma ir separado da procura de um entendimento com a UNITA. Nessa data as tropas cubanas todavia levavam com o peso das acções contra as forças de Savimbi ainda que aumentavam aceleradamente os efectivos e o treino das FAPLA para tratar de "angolanizar" a guerra. A retirada das tropas cubanas naquele momento podia significar o colapso do MPLA e Neto desejava chegar a um entendimento com a UNITA mas não numa posição desvantajosa.

Agostinho Neto (foto Net)
Sob esta apreciação, seis meses depois de iniciadas as conversações com a África do Sul, Neto solicitou ao Presidente do Senegal durante a Reunião Cimeira da Organização dos Estados Africanos celebrada em Monrovia, Libéria, em Julho de 1979, para servir de mediador para entrevistar-se com Savimbi no mes de Setembro.
O governo cubano ao conhecer através da sua Inteligência os diferentes passos dados por Neto sem o conhecimento de Fidel Castro, começaram em La Habana as acusações de traição ao líder do MPLA. À medida que começaram a deteriorar-se as relações entre ambos os governos começou a espalhar-se uma vasta campanha política dentro das tropas cubanas em Angola com o duplo propósito de demonstrar ao MPLA o nosso desinteresse e também preparar o terreno para uma possível retirada do corpo expedicionário.
Em frente a todas as unidades cubanas ordenou-se colocar placards com a efígie do ministro das Forças Armadas, general Raul Castro e junto da mesma, fragmentos de alguns dos seus discursos em que fazia menção sobre a presença cubana em Angola. O mais difundido foi: "De Angola não queremos nem o seu petróleo, nem os seus diamantes, nem o seu cobre, nem nenhumas das suas riquezas. Estaremos em Angola até que o governo do MPLA o deseje. E, quando nos formos somente levaremos os nossos mortos que deram o seu sangue por esta terra".
Resultava evidente que aqueles placards colocados fora das unidades militares e que podiam ser lidas por qualquer transeunte que passasse, estavam dirigidas a contra-restar os sentimentos de hostilidade contra a presença cubana em Angola que começava a manifestar-se entre a população e entre as esferas do governo de diferentes comandos militares.
A través da poderosa maquinaria propagandística do Partido Comunista dentro das forças armadas cubanas, desenvolveu-se uma vasta mas velada campanha a fim de criar um sentimento desfavorável à figura de Agostinho Neto.
Os que conhecemos perfeitamente os métodos de agitação e propaganda do Partido Comunista, prontamente nos apercebemos de que algum acontecimento importante estava a ponto de acontecer. Era totalmente fora do comum que os trabalhadores políticos nas tropas não contestaram os comentários e opiniões hostis que se diziam acerca do governo. Entre os coronéis e generais cubanos falava-se abertamente na traição de Neto e a sua aproximação ao Ocidente. A assinatura de diversos contratos com empresas francesas, suíças e holandesas para aquisição de tecnologia militar, incluindo grandes quantidades de helicópteros Allouette e aviões anti-guerrilha serviu para reafirmar os constantes rumores que se propagavam entre as tropas.
No meio deste clima de incerteza nos primeiros dias de Setembro, o mês em que pensava reunir-se com Savimbi em Dakar, Neto viajou para a União Soviética para receber assistência médica devido a uma doença surgida nas vias digestivas. Dois dias depois de internado num hospital moscovita se recebeu a notícia do seu falecimento.
Os factos que precederam a morte de Neto, as obscuras circunstâncias da sua morte repentina, o estranho personagem que o substituiu na chefia do MPLA e a significativa viragem da sua política interna e externa nos levaram à conclusão de que nesta oportunidade não existiu a falta de coordenação entre Moscovo e La Habana que um ano antes frustrara o intento para mudar a chefia do Estado Angolano.
Nós nunca tivemos acesso às especulações que pudessem ter surgido nos círculos políticos e jornais do Ocidente à volta da morte de Neto. No entanto os que conhecíamos a causa da rebelião de Nito Alves, a viragem política empreendida por Neto até à sua repentina morte, a inexplicável separação do seu médico pessoal uma vez internado num hospital moscovita, a dirigida e velada campanha política que o Partido Comunista empreendeu dentro das tropas cubanas para criar sentimentos desfavoráveis à política de Neto, a ascensão ao poder de uma figura nova que vinha passando sobre prestigiados fundadores do MPLA, educada nas universidades de Moscovo e tendo como esposa uma cidadã soviética, fez-nos compreender perfeitamente a lição mostrada pelo velho diabo aos seus alunos cubanos: "Sempre podiam aparecer novos e mais refinados métodos para alcançar um objectivo. O fim justificava os meios".
Anos mais tarde, numa das minhas frequentes viagens a Angola fui convidado para uma recepção oficial oferecida pelos assessores militares soviéticos pelo motivo da Revolução Socialista de Outubro. Concluída a actividade protocolar, à insistência de altos chefes militares soviéticos que se encontravam também de visita à capital angolana, permaneci na missão para continuar ao estilo russo a parte não oficial da celebração.
Em poucas horas, a vodka e a kalbasa se tinham imposto ao juízo e discrição. Não sei qual das diferentes versões que escutei era a verdadeira. Mas o que ficou claro para mim, foi que todas as nossas lógicas e fundamentadas deduções estavam certas. Agostinho Neto tinha sido assassinado..


                            

 

A minha opinião:

                                                                                                                                                                                                             
Vou tentar falar do homem politico e não do" Escritor" nem do "Médico"... As escolhas feitas por Agostinho Neto em 1975  levaram Angola a uma situação de guerra civil metendo assim fim ao acordo de Alvor.                                       
 Dos Acordos do Alvor, soube apenas que as reuniões tinham decor­rido em ambiente cordial, que passaria a funcionar um Governo de Tran­sição, com três ministros portugueses e outros três de cada um dos Movimentos, e que a independência seria proclamada em 11 de Novembro de 1975. Não sei se em Lisboa o povo teve conhecimento de mais pormeno­res. Em Luanda, não. A entrega de Angola fez-se com todos os segredos e cautelas de um negócio de contrabando...


 Vou partilhar com vocês algumas paginas tiradas do livro de EMIDIO FERNANDO:


"OS MESES ALUCINANTES DO «ALMIRANTE VERMELHO»



O Acordo foi declarado transitoriamente suspenso pelo Decreto-Lei n.° 458-a/75, de 22 de Agosto de 1975, que é mais um documento miserável assinado pelo Primeiro Ministro Vasco Gonçalves e pelo Presidente da República, Francisco da Costa Gomes. Os seus únicos efeitos práticos foram deixar o MPLA inteiramente à vontade para usurpar o Poder e ignorar a alínea i) do artigo 24.° (garantir e salvaguardar a defesa de pessoas e bens) e, sobretudo, o artigo 54.° pelo qual «a FNLA, o MPLA e a UNITA se comprometeram a respeitar os bens e interesses legítimos dos portugueses domiciliados em Angola».
O próprio almirante assume as simpatias que nutria pelo movimento de Agostinho Neto e admite tê-lo ajudado a alcançar o poder. A primeira oportunidade surgia logo com a aprovação de uma verba de 10 mil contos mensais destinada aos três movimentos reconhecidos por Portugal. A ideia surgira a Rosa Coutinho durante uma conversa que teve com o líder da UNITA, Jonas Savimbi, que se queixava de estar a ter dificuldades financeiras e que, por isso, teria de recorrer a apoios externos. O presidente da Junta Governativa não duvidava que o dinheiro da UNITA provinha de Pretória e dos colonos portugueses, daí que tivesse assinado o decreto que permitiria a ajuda financeira, igual para os três movimentos reconhecidos por Portugal. Mal a decisão passava a papel carimbado, Rosa Coutinho avisava os dirigentes do MPLA que já poderiam levantar o dinheiro. No cofre da Junta, restavam pouco mais de 10 mil contos. Ou seja, a primeira verba chegava às mãos do movimento de Neto, os restantes movimentos teriam de esperar pela transferência de Lisboa, que ainda vivia em desordem, no rescaldo do «25 de Abril».


Não era só a falta de dinheiro do MPLA que preocupava Rosa Coutinho. O «Almirante Vermelho», como lhe chamavam nos jornais, não duvidava que Agostinho Neto estava derrotado militarmente, depois de ter sofrido um forte desgaste na guerra contra os militares portugueses e, no último ano, ter atravessado uma crise interna que provocou dissidências e dividiu o movimento em duas facções: a de Mário Pinto de Andrade e a de Daniel Chipenda. Perante este diagnóstico, Rosa Coutinho começava por idealizar a utilização dos mais de dois mil catangueses que se encontravam em Angola, na província da Lunda, e que já tinham colaborado com o exército português, em 1968. Na altura, foram comandados por um capitão português dos «comandos», Elísio Figueiredo, e treinados pelo célebre mercenário francês Bob Denard. Na operação de os convencer a alinhar com o MPLA, Rosa Coutinho convidava o comandante dos catangueses, general Natanael M'Bumba, para uma visita a Luanda que, a primeira e única vez que entrava no Palácio do Governo, ficara fascinado por um lustroso Mercedes, com pneus de faixa branca. Ironicamente, Rosa Coutinho pensava, de imediato, que o carro era «brilhante o suficiente para seduzir qualquer general». E, poucos dias depois, oferecia o carro a M' Bumba, estabelecendo a partir daí uma relação que levaria rapidamente à conversão dos catangueses à causa de Neto. A conclusão do acordo ficou marcada para a cidade do Luena a 16 de Dezembro, com M'-Bumba a exigir a presença do próprio presidente do MPLA. No entanto, no dia marcado, o líder do MPLA enviava Lúcio Lara para o representar. Rosa Coutinho fez questão de participar no encontro, viajando até à cidade de Luena. À sua espera, na pista do aeroporto, aguardava-o um vistoso e impecavelmente reluzente Mercedes, com pneus de faixas brancas, que o levou ao local do encontro. Os catangueses comprometiam-se a colaborar com o MPLA. O movimento de Neto garantia deixá-los viver em Angola depois de declarada a independência. Rosa Coutinho regressava a Luanda, satisfeito:
«A aliança foi extremamente útil ao Agostinho Neto. Porque o MPLA não tinha forças militares e passou a ter a melhor infantaria que estava em Angola. Na altura, o MPLA tinha apoios duvidosos da URSS. Os soviéticos não sabiam se deveriam apoiar o MPLA, porque aquilo tudo era um saco de gatos. Só Cuba dava um apoio sólido.»                                          

  Menos de um mês depois de assumir o cargo, Rosa Coutinho voltava a enfrentar uma manifestação, mas no pátio interno do Palácio. A facilidade com que os manifestantes, brancos e pretos, entraram no edifício levantava suspeitas que a própria PSP tenha sido conivente. E mais tarde essas suspeitas confirmavam-se quando elementos da própria polícia faziam batidas pelos musseques e alinhavam ao lado dos manifestantes anti-Coutinho. Dentro do Palácio, numa das salas que dava acesso ao pátio, Rosa Coutinho subia a uma secretária para se fazer ouvir e, discursando e respondendo a perguntas, conseguia travar a fúria até à chegada dos fuzileiros. Mal a manifestação foi dispersa, Rosa Coutinho ordenava que o Palácio passasse a ser protegido por uma companhia de fuzileiros. Alguns velavam os arredores do edifício, em cima do telhado, fortemente armados com metralhadoras. No humor da população luandense, nasciam os «violinos do telhado»                                 
                      


Sobre o 27 de maio 1977 em Angola...  

Angola 27 Maio: Sobreviventes e familiares de vítimas apresentam queixa.

Vera Magarreiro, da Agência Lusa

Todos concordam que se tratou de divergências ideológicas, e de ambos os lados surgem acusações de fraccionismo.
Na altura os sobreviventes, consideravam o presidente Neto como o seu líder e falam mesmo em “culto da personalidade”. Hoje já não pensam assim e atribuem-lhe responsabilidades. Se o primeiro discurso de Neto após o golpe foi moderado, o segundo foi o mote para “caça ao homem” que se seguiu. Neto afirmou: “Não haverá contemplações”. “Não perderemos muito tempo com julgamentos”.
Os sobreviventes consideram que existia uma ala maoísta, que preconizava uma viragem à direita, liderada pelo secretário administrativo do movimento, Lúcio Lara, e a ala marxista, pró-soviética, defendida por Nito Alves, que reflectiam a realidade mundial em plena Guerra Fria.
Na versão oficial, uma declaração do Bureau Político do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), divulgada a 12 de Julho de 1977, o 27 de Maio foi uma “tentativa de golpe de Estado” por parte de “fraccionistas” do movimento, cujos principais “cérebros” eram Nito Alves e José Van-Dunem. Para alguns sobreviventes, como Jorge Fernandes, José Fuso e José Reis, que vivem em Portugal, tratou-se de “um contra-golpe”, uma vez que Nito Alves pretendia apenas “cumprir escrupulosamente os estatutos do movimento” e seguir “a orientação marxista-leninista adoptada”.
Golpe ou contra-golpe, a repressão que se seguiu ao 27 de Maio contra os chamados fraccionistas teve graves consequências na sociedade angolana pelo número de mortos e detidos, mas também no seio do próprio MPLA, que perdeu muitos dos seus quadros e jovens militantes.
Ninguém sabe ao certo quantas pessoas morreram.
  
Em Abril de 1992, o governo angolano reconhece que foram “julgados, condenados e executados” os principais “mentores e autores da intentona fraccionista”, que classificou como “uma acção militar de grande envergadura” que tinha por objectivo “a tomada do poder pela força e a destituição do presidente (Agostinho) Neto”.

Entre os 11 nomes divulgados pelo governo estavam Nito Alves, José Van-Dúnem e a sua mulher Sita Valles, militante da União dos Estudantes Comunistas em Portugal e que passou a militar no MPLA em meados de 1975. Os seus corpos, bem como os dos restantes, nunca foram entregues às famílias, nem emitidas certidões de óbito.
                                                         
Na declaração do Bureau político, um mês e meio após o golpe, afirma-se que Nito Alves e José Van-Dúnem defendiam “teorias racistas inconciliáveis com o programa” do partido, e que, apesar do seu “vocabulário ultramarxista”, eram “representantes da pequena burguesia a que diziam votar tanto ódio”.
Por outro lado, os que foram acusados de fraccionismo consideram que o golpe já estava a ser feito pelo grupo dos maoístas, que colocaram os seus apoiantes nos principais centros de decisão do partido e “instrumentalizaram alguns media angolanos, em especial o Jornal de Angola”, para criar um “clima de terror” contra os que consideravam “fraccionistas”.

Os sobreviventes afirmam que já ouviram uma versão de que terá sido a própria polícia da segurança do Estado (DISA) a matar estes dirigentes, incluindo o então ministro das Finanças, Saidy Mingas, para incentivar a “chacina” que se seguiu.
Esta é também a versão do presidente da Fundação 27 de Maio, que afirma ter “provas”, que “um dia” apresentará. Dados factuais foram a tomada a Rádio Nacional e a Cadeia de São Paulo e a organização de uma manifestação popular que se dirigia para o Palácio presidencial.
Os sobreviventes afirmam que se tratou de uma contestação popular e que Nito Alves nunca quis substituir Agostinho Neto. “Se Nito quisesse realizar um golpe de Estado militar com certeza teria conseguido, porque, desde que os cubanos ou os soviéticos não interviessem, ele tinha o apoio das brigadas mais importantes”, salientou Jorge Fernandes.
Os cubanos acabaram por intervir e, ao final da manhã do dia 27 já tinham retomado o controlo da Rádio Nacional e da cadeia de São Paulo.
Nito Alves e José Van-Dúnem tinham sido formalmente acusados de fraccionismo em Outubro de 1976. Os visados propuseram a criação de uma comissão de inquérito, que foi liderada pelo actual presidente angolano, José Eduardo dos Santos, para averiguar se havia ou não fraccionismo no seio do partido.
As conclusões desta comissão nunca foram divulgadas publicamente e Nito Alves nunca terá sido ouvido. Decide então escrever “13 teses em minha defesa”, que, segundo os seus apoiantes da altura, não teve oportunidade de apresentar porque foi, juntamente com José Van-Dúnem, expulso do comité central do movimento, a 21 de Maio de 1977.

Os apoiantes de Nito dizem que este nunca foi julgado. O governo angolano diz que sim, pelo Tribunal Militar Especial, criado em Julho de 1977.
Em Julho de 1979, Agostinho Neto decide dissolver a DISA pelos “excessos” que havia cometido e, alegadamente, por pressões internacionais, em especial no seio da Organização da Unidade Africana (OUA), agora União Africana (UA).                                                                                                                   





 
     

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